terça-feira, 8 de dezembro de 2015

rever a paisagem em si

Em meus deslocamentos busco capturar as mais diversas paisagens e modos de ocupação do solo pelo homem sedento de urbanidade. No entanto, não procuro tecer qualquer crítica a esses modos, assim deixo aberto ao observador os questionamentos sobre a dinâmica dessas ocupações, e suas relações com as habituais paisagens de seu cotidiano.


uma escrita em devir

domingo, 2 de novembro de 2014


Depois dos primeiros longos e lentos movimentos do dia pela casa, afinal dirijo-me ao ateliê. Ligo o computador para atualizar os e-mails e tomar pé das agitações do mundo. As notícias não me parecem nada boas, ou por outra, parecem-me uma repetição monótona dos mesmos erros de sempre – intolerâncias muito antigas, que se arrastam por séculos, gerando diásporas e sangrentas batalhas – emaranhados de difícil desatamento, num império de precariedade e incerteza.[1] Não quero me contaminar, mas também não me situo no grupo dos alienados, e diante desta minha existência, desta minha humanidade, entre desejos, neuroses e medos, procuro fazer minha parte: "Creio que todos nós aqui presentes estamos conscientes da importância e da urgência de dar um passo, de começar a fazer alguma coisa."[2] Assim, abdiquei de certos hábitos, como a compra automatizada do jornal diário (que em minha cidade se resume a um único nome comprometido com o idealismo do "dinheiro-rei"[3], e troquei-o pela intensidade de opiniões divergentes que encontro na internet. Junto a esta renúncia, veio antes até, alguma desobediência e uma tomada de consciência; de saber-me um quase nada, uma ínfima partícula num todo inapreensível e que me assombra, mas ao qual estou irremediavelmente atrelada. Essa é a parte do lobo.

 Mergulho no trabalho como forma de resistência aos excessos e às faltas do mundo. Abro a pasta das imagens mais recentes e me entrego à tarefa de edição das imagens capturadas no dia anterior. A mesa fica próxima à sacada aberta sobre a rua. A manhã embala outros fluxos vitais como o das nuvens e do vento; de pássaros e pequenos insetos que povoam os galhos da grande árvore que se estende imponente sobre a distância entre meu prédio e o outro, e que se eleva na calçada em frente. Vindos da rua, rumores apressados invadem o ateliê e me dão outras notícias do mundo lá fora – sons produzidos por pessoas e veículos que passam com sua pressa diária, enquanto o burburinho das crianças na creche ao lado me faz experimentar a felicidade de suas vozes evocando lembranças de tempos muito distantes. O canto metálico do bem-te-vi parece anunciar o curso geral de minhas expectativas e me convoca a agir. The world crashes in, into my little room.[4]

Enquanto trabalho, a câmera montada no tripé captura no modo movie essas movimentações que, para mim, se traduzem como signos da transitoriedade da vida – talvez resida aí a insistência do uso de uma câmera a beira do esgotamento, que impregna a imagem de ruídos expondo as marcas da passagem do tempo. Instável e borrada, a imagem revela silenciosamente a precariedade e efemeridade da vida, como se tudo estivesse a um passo de se desmanchar. Procuro então tirar proveito desse efeito que a máquina desgastada adiciona às imagens, principalmente naquelas voltadas para o registro da paisagem de minha cidade, há muito vulgarizada nos cartões postais e nas promoções das agências de turismo, como no vídeo Sobre pontes e travessias (2011). Nele, um barco, ou melhor, a proa de um pequeno barco desponta no primeiro plano. A forma branca e triangular contrasta com a cor cinza que satura toda a cena. Plúmbeo é o mar, assim como o céu e alguma paisagem que se entrevê ao fundo banhada em água de chumbo. No segundo plano, o fragmento de uma ponte atravessa o quadro de ponta a ponta, ligando o que não se vê àquilo que não se sabe, e que repousam anônimos fora do plano. Silenciosa, a imagem demanda uma escuta em constante estado de atenção sobre os possíveis sons que a povoam – da ponte, do mar e da paisagem ao longe. O barco não ultrapassa a ponte, não chega mesmo a alcançá-la. Tudo se mantém a distância como se esta fosse a condição daquele que se lança ao mar. Como se a distância guardasse em si mesma a qualidade do inatingível. E ao tomar os deslocamentos em geral e as caminhadas em particular, como uma artista-viajante-contemporânea,sigo a buscar uma outra cidade, mantida à distância, e que não estampa os cartões postais. 


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Séries Gráficas em Processo

A mostra Série Gráficas em Processo em cartaz no mês de dezembro na Galeria EAV, apresenta trabalhos de artistas que vêm desenvolvendo suas pesquisas nas oficinas de serigrafia da EAV-Parque Lage. São muitas as questões e referências apresentadas em suportes variados.
Escolhi mostrar dois trabalhos, o primeiro fala do processo serigráfico com máscaras de papel e pretende ainda dialogar com O Grande Vidro de Marcel Duchamp, por isso o trabalho leva o título de O pequeno vidro. Trata-se de um display em acrílico transparente onde foram sobrepostas três máscaras de papel utilizadas para impressão. Instalada perpendicularmente a uma das paredes da galeria, a peça aciona o espaço que a abriga. Ao aproximar-se do Pequeno Vidro, o visitante percebe-se num outro lugar de onde é possível observar através dos recortes vazados a movimentação na galeria, o que lhe proporciona um olhar voyuerístico. No entanto, esse mesmo visitante-voyeur passa a saber-se também passível de ser observado, o que pode trazer um desconforto até então não experimentado.
Com O Grande Vidro, Duchamp inaugura um espaço topográfico dentro de um outro espaço, o expositivo. A peça, uma lâmina de vidro duplo seccionada horizontalmente em duas partes, já em sua configuração, sugere o que sua transparência de vidro assinala, a duplicidade. Medindo  2,725x1,758m, o Vidro, pela força de sua materialidade mesma, aciona a visibilidade do outro que se encontra no lado oposto, expõe e secciona o espaço no qual se encontra instalado. Para Octávio Paz, "é um enigma e, como todos os enigmas, não é algo que se contempla, mas sim que se decifra."1  Cabe a nós, portanto, experimentá-lo. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

instantâneo do vídeo "Sobre ilhas e pontes" 



"Sobre ilhas e pontes", trabalho apresentado na forma de pequena instalação áudio visual na exposição Cidade e Desaparecimento procura trazer a tona algumas questões que perpassam as relações entre arte, seus objetos, lugares e dispositivos de apresentação, assim como acionar a memória da cidade, de seus habitantes e do próprio lugar que os abrigam. O vídeo mostra uma caminhada em um parque da cidade do Rio de Janeiro, lugar pitoresco, que guarda em sua área dois outros espaços criados no século XIX; duas heterotopias, diria Foucault. 

Pensado primeiramente como registro da ação no parque, o vídeo se desdobra em obra, e com essa nova forma adquire certa autonomia podendo tomar diversos espaços de exposição, e nesse caso especificamente, indo além, e envolvendo o projeto e a construção de um dispositivo de apresentação incomum para imagens em vídeo; uma vitrine que trata diretamente da relação com os dispositivos museológicos e a exibição de suas coleções, sejam de objetos antropológicos, etimológicos ou outros tantos dados a ver nos museus, e que também evoca coleções particulares e gabinetes de curiosidades.   

Durante a caminhada, a câmera leva o espectador a refazer seu percurso até uma dessas heterotopias,  e poucas são as pistas que podem revelar o lugar para onde se dirige. Não se procura tratar portanto do imediatamente reconhecível, mas de acionamentos de memórias subjetivas e particulares, de ampliações espaço-temporais. Assim, lentamente, o espectador começa a tornar parte da obra, a vivenciar o espaço que se anuncia e que se vê capturado como imagem pela câmera e emoldurado não só por uma vitrine e passe-partout, mas também pela instituição mesma que os abriga, visitante e obra. Também a música compõem junto as imagens uma cadência que o incita a percorrer o espaço visitado e o captura. Conjugados, som e imagem começam então a convocar outros espaços, como o espaço da memória ao evocar outras temporalidades e ausências; conceitos, como público e privado, real e virtual e questões de vida e arte, como pertencimento e não pertencimento, transparência e opacidade.

A medida que caminhamos, colocamos nossos sentidos em alerta a fim de poder exercer uma espécie de domínio sobre nosso corpo e sobre o espaço por onde nos deslocamos, e ao mesmo tempo que avançamos, seja sem rumo predeterminado ou com um propósito definido, vamos deixando para trás traços de nossa passagem por outros lugares caminhos espaços e memórias de encontros e de nós mesmos.  

Durante a caminhada-convite poucas são as referências que cedem ao olhar do visitante-observador-partícipe o prévio reconhecimento do lugar onde se dá a ação e para o qual é transportado; condição de possibilidade de encontros com o imprevisto, posto que o lugar para o qual a câmera avança, lenta mas imperturbavelmente, permanece por longo tempo como invisível presença. 
Instalado dentro da vitrine e envolvidas pelo passe-partout, o trabalho ao mesmo tempo demanda outra postura na aproximação física do visitante, a imagem só pode ser vista por um recorte na grande moldura e a altura do anteparo (da tampa da vitrine) obriga-o a dobrar seu ventre e assim posicionado se vê condenado a experimentar uma posição menos vertical e usual. 

A localização do móvel na galeria também conta com o inesperado. Posicionado à esquerda da entrada da galeria, praticamente atrás de uma das portas, portanto em lugar pouco provável de se localizar um objeto de arte, o visitante apressado só o descobre à saída, depois de ver toda a exposição, e aí então percebe de onde vinha a música que ouvira à distância. Aí então, entre obra visitante e espaço fecha-se um circuito.   


domingo, 9 de outubro de 2011

a ação que rompe a continuidade

Sentada à janela do ônibus, capturo a paisagem externa e o movimento das ruas. Vejo o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara e me pego a imaginar o momento dos viajantes a vislumbrar essa geografia, a registrar suas primeiras e agitadas impressões dessa estonteante paisagem, quando ainda não havia essa outra natureza que é a cidade. Mas ao mesmo tempo em que uma excitação me alenta, também experimento uma melancolia sem que isso me paralise.
Essa condição conduz meu pensamento a Walter Benjamin que, sabendo de perdas irreparáveis, não se permitia paralisar e caminhava pelas ruas de Paris e por suas passagens encontrando, resgatando e dando nova vida aos rastros de singularidades perdidas que assim renovavam e resignificavam o presente em que ele vivia.

Susan Sontag assinala a transmutação do extremo estado de paralisia melancólica em revoltada ação em Benjamin:

                 "No espaço, podemos ser outra pessoa. O escasso senso de orientação em Benjamin e sua incapacidade de interpretar o mapa de uma rua transforma-se numa paixão pelas viagens e no domínio da arte de se perder. O tempo não nos concede muitas oportunidades(...). O espaço, ao contrário, é amplo, fértil de possibilidades, posições, interseções, passagens, desvios, conversões, becos sem saída, ruas de mão única. Na realidade, demasiadas possibilidades. Como o temperamento do saturnino é vagaroso, propenso à indecisão, às vezes, precisamos abrir caminho de faca na mão. Às vezes, acabamos virando a faca contra nós mesmos."¹

Imbuído de uma melancolia que não o abatia, mas sim o provocava, Benjamin saía a recolher em notas, em fragmentos, espaços poéticos de uma cidade, seus viventes e os fugidios traços que remetiam àqueles que já não estavam mais lá; procurava o beco, o que não estava explicitamente visível; a cidade fora de seus aspectos mais tradicionais, onde a história não está mais dada, pronta e acabada como um discurso contínuo e homogêneo; onde a história se apresenta como problema que se recoloca constantemente e não como resposta já concluída antes mesmo de se colocar a questão. 

Benjamin indagava justamente sobre o que o historiador do convencional propositadamente encobriu ou por conivência deixou que se ocultasse. Para Benjamin é preciso "pentear a história a contrapelo"², é preciso aproveitar a fugidia oportunidade de ler as outras histórias que repentina e quase imperceptivelmente vão despontando em pequenas percepções permitindo que se rompa a continuidade de um discurso costumeiro que as houvesse ocultado ou destruído para sempre.

O tempo do melancólico é o da interrupção do tempo contínuo. Uma forma sagaz de pensar que não procura negar a ilusão de um tempo ininterrupto em direção ao progresso, mas sim criticá-lo, divergindo de sua ininterrupta marcha; rompendo-a e mudando seu ritmo para que dela possam brotar desvios capazes de criar novas oportunidades de vida para os que hoje demandam novas possibilidades. É como reacender uma chama que se apagara. 
Mas isso não acontece através de uma esperança que aguarda um milagre capaz de contornar as possibilidades e impossibilidades já conhecidas. É preciso romper as relações com o excessivo peso do que já se conhece como possível para que se possa ver o quanto esse conhecimento é paralisante e interdita a ação.

Tomada então por essa melancolia benjaminiana aliada a uma esperança ativa, caminho pela cidade no intuito de resgatar pequenas capturas de sob a ilusão de um cotidiano que se repetiria como o mesmo todos os dias; seja no ato da intervenção nas rua e nos meios de transporte, seja na forma de fotografias e vídeos ou à outras tantas artísticas ou não.  Essas combinações trazem a tona novos significados que não resultam de minha adesão a nenhuma intenção prévia de expor um determinado ponto de vista sobre o que encontro pelo caminho, mas fazem emergir novas visões e desvios sobre as noções comuns sobre o dia-a-dia.
Preciso esvaziar-me do já visto para poder ver um novo presente, para poder sentir a tristeza de um modo jamais visto, capaz de atear fogo aos meus sentidos; abandonar o já conhecido e as antigas esperanças e expectativas para poder construir novos modos de agir esperançosamente.

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¹ SONTAG, Susan. Sob o signo de Saturno. Porto Alegre: LPM, 1986, pp.90-91.
² BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. Tese VII, apud LÖWY, Michael. Walter Benjamin: aviso de incêndio: uma leitura das teses "Sobre o conceito de história". São Paulo: Boitempo, 2005, p.70.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

nota sobre santas rainhas princesas e trânsito 4b na mostra cotidiano&mobilidade:

No próximo domingo, dia 28 de agosto, termina a exposição do grupo cotidiano e mobilidade, em cartaz na galerias 1 e 2 da EAV-Parque Lage.

Os trabalhos apresentados por mim  na exposição, partiram do mapeamento das linhas de ônibus - num total de 25 linhas -, que trafegam pela  rua Jardim Botânico; grande via localizada no bairro de mesmo nome e que faz a ligação entre outros bairros da cidade do Rio de Janeiro.¹ Minha ligação com essa rua se dá por dois motivos; pelo fato de morar em uma de suas transversais e por frequentar a EAV-Parque Lage onde dou aulas de arte para crianças e participo de cursos e oficinas, localizada no nº 414.

Durante o processo de mapeamento e pesquisa, algumas mudanças ocorreram, como a uniformização da cor dos ônibus e pequenas alterações nas rotas e nos números das linhas. No entanto, o serviço em si, continua muito ruim. Não há uma fiscalização efetiva nas ruas por parte da Prefeitura nem melhora no trânsito. Os poucos fiscais presentes em alguns pontos, são empregados das concessionárias, e ali se encontram somente para regular o tempo gasto pelos motoristas entre determinados pontos.
É visível o estresse e a agressividade em muitos motoristas e cobradores. O tráfego pesado aliado à falta generalizada de educação para o trânsito, são ingredientes para que as viagens se tornem cansativas ou mesmo tomarem por vezes ares de aventura; quando, diante de pistas livres, os motoristas imprimem grande velocidade no intuito de querer descontar o tempo perdido.

Durante a cobertura dos itinerários, descobri a massiva presença de nomes masculinos nas vias e logradouros em geral.  Apenas dois túneis, um viaduto, um largo, três avenidas e doze ruas levam nomes de mulheres. Por conta disso, um dos trabalhos da mostra procurou assinalar essa dissonância. Trata-se do vídeo Santas rainhas princesas, elaborado a partir da fotografia de um ônibus, cujo letreiro revela os nomes de mulheres mapeados. 

Também foram selecionados para a mostra dois trabalhos em serigrafia, dispostos lado a lado na galeria, apresentados em display de madeira utilizados em bancas antigas de jornais e em casas lotéricas. O primeiro grupo, apresenta serigrafias impressas sobre seleção de matérias jornalísticas que se relacionam com a questão do trânsito na cidade do Rio de Janeiro. No segundo display, as serigrafias impressas sobre folhas de papel jornal apresentam composições gráficas que se relacionam com os percursos percorridos.
As cores e texturas da tinta dialogam diretamente com as cores das placas de sinalização e do asfalto que recobre as vias. A leitura dos textos dos jornais que restam visíveis sob a intervenção, se desdobram e criam uma fricção com questões que envolvem o próprio sistema da arte.

















¹. Dentre as 25 linhas, uma faz a ligação entre o bairro da Gávea e o de Icaraí na cidade de Niterói. Somente o percurso da linha do metrô de superfície não foi mapeada, ainda que o dito metrô de superfície não passe de um ônibus.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O grupo cotidiano e mobilidade traz a público de 22 de julho a 28 de agosto, nas galerias 1 e 2 da EAV_Parque Lage, Rio de Janeiro, as pesquisas de 11 artistas que tiveram como ponto de encontro e de trocas o Núcleo de Arte e Tecnologia (NAT_EAV).

A mostra revela relatos a partir de mapeamentos de percursos impregnados de experiências distintas e afetos múltiplos. As artistas utilizaram dispositivos móveis como câmeras e celulares, assim como outros meios plásticos e sonoros para compor narrativas cotidianas acerca da cidade e de seus habitantes.

Meu trabalho se configura como um jogo cujo ponto de partida é o ponto de ônibus mais próximo de minha casa. O objetivo consiste em percorrer, ponto a ponto, todas as linhas que trafegam pela rua principal, mapear os percursos e registrar seus extremos a fim de ultrapassar dissonâncias entre zonas sul, centro, norte e oeste da cidade do Rio de Janeiro. O resultado desses percursos toma formas diversas como vídeo, fotografia e serigrafias sobre papel jornal.





segunda-feira, 23 de maio de 2011

Rotina

O despertador toca, são seis horas da manhã, é difícil levantar, desejo mais alguns minutos de sono. Novamente o despertador responde a hora programada, permito-me mais dez minutos e novamente o despertador toca o mesmo toque de todo dia, agora não dá mais; se não levantar nesse exato momento, acabo atropelada na minha própria lentidão. Alongo-me para que o corpo possa se preparar para um mesmo longo dia. A agenda está cheia. Abro a porta do quarto e a gata sai na minha frente. Ela já tinha dado sinais de que era dia antes mesmo do despertador tocar.  Vou até a área de serviço e encontro o pote de ração sobre a mesa; abro-o e sirvo-a. Fecho o pote, recoloco-o no mesmo lugar, e me dirijo ao banheiro. Antes passo pela cozinha, tomo dois copos de água para ativar o corpo, e alcanço a chaleira em cima do fogão. Dirijo-me à área onde se localiza o filtro, coloco água na chaleira e retorno à cozinha. O acendedor automático não quer funcionar. Pego a caixa de fósforos, acendo o fogo para a chaleira e o forno para o pão. Primeira checagem do dia: ok tudo certo; agora banho! Demoro-me ao mesmo tempo em que experimento a deliciosa sensação da água quase fria sobre meu corpo  e o cheiro doce do xampu e sabonete. Já ouvi o apito da chaleira longo e contínuo - talvez seja esse o som que embala a rotina cotidiana. Experimento um pequeno frisson; talvez já tenha que acelerar o ritmo, demorei muito no banho e ainda tenho que pôr a mesa para filha e marido que também vão sair! Esqueci de tirar e pendurar a roupa que botei pra lavar na máquina ontem à noite; será que ainda dá tempo? Antes de sair, olho-me no espelho: não tem jeito, é a repetição da rotina que começa a ocupar mais um dia sempre igual. Desço as escadas. Aperto os botões que abrem a porta e o portão que me leva à rua. Lembro então de um verso de Fernando Pessoa que diz: "Entre o que vive e a vida pra que lado corre o rio?" Alcanço a calçada e começo a descer a rua. Pessoas passam por mim levando também seus roteiros diários que se unem ao meu e a tantos outros criando um fluxo maior que igualmente se repete formando montantes e vazantes que compõem as naturais marés de nosso ambiente urbano, colocando em questão as tradicionais separações entre o natural e o artificial. A paisagem já é outra quando encontro a esquina e me deparo com a rua principal, grande via de acesso a outros bairros da cidade onde passam os mais variados tipos de veículos - caminhões carros particulares táxis ambulâncias diversas linhas de ônibus motocicletas triciclos e bicicletas num vaivém contínuo (no céu vejo helicópteros). Seu tráfego pesado e intenso ainda que pareça caótico apenas segue uma complexa organização formando mais um sistema que se entremeia de modo muito complexo em outros sistemas. Em sua longa extensão, rua e bairro abrigam ainda outros lugares que ajudam a engrossar seu trânsito ao longo do dia como prédios comerciais empresas clínicas hospital público escolas praças clubes mercados bares lanchonetes restaurantes farmácias bancos  livraria  áreas de lazer bancas de jornais.
Dirijo-me ao ponto de ônibus. Espero o sinal de trânsito parar o fluxo de veículos em mão-dupla. Atravesso a faixa de pedestres. O ritmo das travessias - minha e dos outros - é medido pela pressa e pelo alcance das pernas. O sinal começa a piscar, e novamente sãos os veículos que dominam a cena. Chego ao ponto; faço sinal e o ônibus passa ao largo. Subo no que vem a seguir e que está sempre cheio. Tenho que viajar em pé. Nesse horário é assim mesmo, estão todos se deslocando de casa para o trabalho... Cumprimento o motorista que não responde. O dinheiro trocado, como de costume, está na mão. Cumprimento o cobrador que parece não me ver. Passo pela roleta estreita e me espremo entre os outros passageiros, poucos se olham; quantos se veem? Alguém fala ao celular, e a conversa dita as horas dos acontecimentos. O ônibus segue em direção ao centro. A viagem até o bairro seguinte é lenta. Lá chegando percebo que em sua rua principal a coisa é a mesma; ônibus carros táxis transeuntes. Depois de uma longa curva o ônibus alcança a praia. Lá fora tudo parece estar em seu devido lugar. Algumas pessoas saltam outras entram, e a viagem segue nesse ritmo que parece interminável. Por sorte consigo um assento depois de grande percurso. Alguém faz sinal; o ônibus para e novamente pessoas sobem outras descem e recomeça tudo de novo... Sigo o caminho num cego automatismo, já nem reparo a paisagem. Por um momento me sinto em profundo estado de torpor. Como a figura alada na gravura Melencolia I de Dürer, lanço um olhar para um outro lugar; um fora de campo que me leva para além dos limites circunscritos à repetição da cena cotidiana, assim a tristeza se desfaz preenchida pela alegria de saber que posso habitar outros lugares. Quando no metrô percebo semelhante opressão. No vagão o ambiente é quase claustrofóbico e o deslocamento subterrâneo aponta para camadas compactadas e emparedamentos - metáfora à condição de aprisionamento involuntário em que muitos se encontram. Cheio de mensagens subliminares adestramentos e esgotamentos, o vagão é um lugar com pouco ou quase nenhum espaço de respiração, além disso, é em si mesmo um espaço de confinamento; é absolutamente necessário que suas portas mantenham-se hermeticamente fechadas durante os percursos dentro dos túneis. 

Cidadão consciente. É preciso que cada um faça a sua parte. Contribua. Atenção. Cuidado. Esquerda. Direita. Para frente. Ande. Pare. Faixa de pedestre. O sinal pisca. Agora é a hora de atravessar. Corra. Seja um. Compre isso. Faça assim. Patrulha. Choque de ordem. Fumante aqui nem pensar! Beba refrigerante diet. Lugar de ficar. Lugar de passar. Setor A. Setor B. Setor G'. Conformação. Rua. Caminho do trabalho. Caminho de casa. Passarela. Faixa contínua. Faixa compartilhada. Cone. Ordem. Mantenha-se a direita. Trânsito lento. Táxi ônibus metrô. Prezado cliente, respeite a faixa amarela. Vagão exclusivo para mulheres. Sobe. Desce. Escada rolante. No ônibus há uma câmera e um monitor exibindo dicas conselhos e notícias banais. No elevador também percebo uma câmera. Controle. Outros olhos eletrônicos monitoram os fluxos de deslocamentos do tráfego e a nós também, já chegaram até mesmo às praias. 

Margens bordas limites e fronteiras. Faixas cercas e muros criam barreiras e separam uns dos outros. Sinto a pressão dos aparatos ordenadores das regras diárias de divisão dos espaços coletivos.

Peixes no aquário.

sábado, 26 de março de 2011

O guardador de rebanhos

O essencial é saber ver,
Saber ver sem pensar;
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê,
Nem ver quando se pensa.

Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de
desaprender.


Alberto Caeiro


terça-feira, 15 de março de 2011

Estou hospedando um bode

Final da tarde de segunda-feira, 14 de março de 2011. Últimos movimentos para o TrAÇÃO receber queridos amigos e professores para um bate-papo na Galeria Cândido Portinari. No meio do caminho toca o celular. Uma voz aflita avisa que o encontro estava suspenso por falta de energia elétrica. Todo o campus do Maracanã, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, estava às escuras e sem previsão de restabelecimento de energia.

Fomos até lá de qualquer maneira pois tão encima da hora assim, seria impossível avisar a todos os convidados sobre o ocorrido. Logo agora, depois de tanto trabalho, quando finalmente a Nena conseguiu um espaço na mídia para divulgar a exposição e seu encerramento, e com a presença de Malu Fatorelli e Roberto Corrêa dos Santos, dispostos a nos prestigiar com o  brilho de suas inteligências.

Para o TrAÇÃO ficou a frustração de ver tanto esforço desperdiçado. Parecíamos saídas de um experimento entrópico onde enorme energia é consumida para nada.

Ficaram ainda algumas perguntas a povoar meus pensamentos:
Para os estudantes que retornavam de férias; ficou o quê?
Será que existem geradores suficientes para minimizar os riscos que um incidente como esse pode causar às pesquisas em laboratórios mergulhados na escuridão?

Hoje soube que o problema aconteceu na subestação da Light em Triagem, bairro da zona norte, onde dois cabos de transmissão se romperam, e que não há previsão para a normalização do serviço, portanto os alunos seguem sem aulas.
Segundo notícia online¹ sobre o ocorrido, segue o clássico empurra-empurra sobre a apuração dos responsáveis; se a concessionária ou a prefeitura.

Fica aqui registrado meu repúdio à falta de competência que grassa nos serviços prestados à população e o lamento pela falta de mobilização que conforma os cariocas.        

domingo, 20 de fevereiro de 2011

série transitivos - 2011
trânsito 1, trânsito 2 e trânsito 3

Triptico apresentado na mostra [espaço comum] do grupo TrAÇÃO
na 
Galeria Cândido Portinari - UERJ
Rua São Francisco Xavier, 524
Maracanã


O grupo TrAÇÃO é formado pelas artistas Daniela Seixas, Isabel Carneiro, Jacqueline Siano, Mariana Katona e Nena Balthar e pela curadora Carla Hermann, e tem sua base no curso de mestrado em artes do Instituto de Artes da UERJ, ambiente que propiciou trocas de ideias e discussões múltiplas sobre arte e vida.

Abaixo, texto que consta no catálogo da exposição escrito por Carla Hermann.


"O que interessa a Jacqueline é a arte contida na simplicidade do fazer diário. A matéria-prima que utiliza é tudo aquilo que vê pelas ruas. Em sua série anterior de trabalhos denominada in transit, a artista deslocava determinados aspectos do cotidiano que ela mesma vivenciava e com eles construía seus vídeos. As pegadas no espaço, as trilhas nas ruas, os rumos pelos trilhos do metrô que marcam o tempo circular da jornada diária é que norteavam sua obra, ao mesmo tempo em que faziam contraponto com momentos idílicos cinematográficos. A edição das imagens e a colagem de trajetórias anônimas com trechos de filmes nos colocam em outro quando, mostrando que é possível outra temporalidade além da estabelecida.

Numa espécie de releitura do ato de flanar, do exercício de fruir o espaço com outros olhos, Jacqueline Siano realiza a apreensão do sublime pelo viés do ordinário. Nos espaços de interstício da circulação capta momentos de beleza espontânea. Procura na melancolia das travessias o singular. E encontra na repetição do que já é repetido pequenos “desvios” que não obedecem à ordem do cíclico e dá continuidade a isto nesta obra apresentada na exposição Espaço Comum.

No trabalho trazido para a exposição, há a exibição simultânea de capturas e edições distintas, cada qual existindo com seu áudio de maneira independente. A montagem em paralelo dos dispositivos exibidores de imagens propõe que os vídeos são complementares uns dos outros  formando uma única obra mas que funcionam, de certa maneira, dentro deles mesmos. Jacqueline coloca em atrito a temporalidade própria da ação capturada e a temporalidade criada pela edição que fez da imagem. Por sua vez, como cada dispositivo funciona como um indivíduo isso acaba por colocar em fricção também cada vídeo que carrega. A artista nos convida a ouvir com os sons de cada vídeo, incendiando as imagens até então silenciosas no espaço expositivo. A partir da expectativa criada pela imagem e a experiência que fazemos dela, vivemos outra situação de oposição: o som pesado de máquinas da construção civil que ouvimos juntamente com a filmagem de uma árvore parece não estar no seu devido lugar. Da mesma forma, ruídos inespecíficos parecem não pertencer à paisagem do lado de fora da janela. Tanto a cacofonia quanto a dissonância entre a imagem e o som nos permitem criar novas experiências a partir do que a artista nos coloca.

A escolha de imagens que Jacqueline Siano faz nos leva a questionar as nossas próprias experiências. Temos as noções de que ficam para trás quilômetros e quilômetros de estrada, de que a urbanidade precária invadiu o campo e de que a (parca) contemplação da natureza que podemos fazer na cidade pode a qualquer momento ser interrompida pelos ruídos do progresso. E nos levam a repensar a maneira como lidamos com o dia a dia e como construímos, também diariamente, nossos tempos."



sábado, 19 de fevereiro de 2011

438R- Vila Isabel-Leblon 
No segundo semestre de 2010, retomei o projeto de mapeamento das linhas de ônibus que trafegam pela rua principal do bairro onde resido - desdobramento de pesquisa iniciada no mestrado sobre fluxos de deslocamentos nos espaços coletivos na cidade do Rio de Janeiro, com ênfase naqueles percebidos como espaços de passagem.  
Para Michel Foucault, os trens (e por extensão outros meios de transporte coletivo) se configuram como espaços de posicionamento de passagem; "um extraordinário  feixe de relações"¹, pois ao mesmo tempo em que passam por nós, nos fazem passar de um lugar a outro e por eles ainda passamos. 

Nesse passar repetitivo, muitos deixam escapar o singular; pequenos rastros na insuspeitável e oculta memória da vida urbana cotidiana. 

O trabalho se configura como um jogo cujo ponto de partida é o ponto de ônibus mais próximo a minha casa. De lá, pretendo cobrir todas as linhas que trafegam pela rua Jardim Botânico, mapear e registrar esses percursos na forma de fotografias, vídeos, desenhos e anotações. 

Recentemente, com a introdução do "bilhete único", começaram a acontecer algumas alterações visíveis e invisíveis, mas profundamente modificadoras dos modos de usar habituais como a padronização das cores dos ônibus, a adição de uma letra a frente da identificação numérica dos carros e a possibilidade de uso de um mesmo bilhete pelo período de duas horas e pequenas alterações nas linhas.
O Sistema Municipal de Transporte Urbano (SMTU) começa no dia de hoje a implantação de um novo traçado do tráfego na Av. N. Sra. de Copacabana com duas faixas exclusivas para ônibus, e parece ter em seus planos para futuro próximo, a expansão desse sistema para outras vias, inclusive para a rua Jardim Botânico. 




       Lgo.Machado-Leblon com novo layout                                                              S.Peña-Horto
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¹.FOUCAULT, Michel. Outros espaços. In: Ditos e escritos, nº3, Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001, p.414.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

um dia comum e especial

Pela sacada do ateliê aberta por sobre a rua, percebo o fluxo aéreo de nuvens e o vento no frondoso e altivo pé de oiti. Sua copa além de derramar uma sombra generosa sobre a rua, amenizando o inclemente sol de verão, abriga imensa diversidade de pássaros e insetos e a itinerante visita de micos-estrela e macacos-prego, o que por vezes me leva a esquecer um pouco a urbanidade logo abaixo.
Da rua ouço vozes e a agitação das crianças na creche ao lado. Tanto as nuvens quanto o pé de oiti vêm tomando minha atenção ultimamente, e enquanto trabalho na edição de um vídeo ou em notas sobre os trabalhos, aciono a câmera que vai capturando outros fluxos e sons que vão aderindo à cena - tudo se mistura na captura direta, como o ensurdecedor ruido de uma britadeira ou o canto de algum pássaro, contrapontos que a cidade pode oferecer.


O tempo lento do passar das nuvens, a movimentação de pequenos insetos e pássaros que transitam pelos galhos. Uma leve brisa ou as fortes rajadas de vento que vem varrer a copa e fazer chover milhares de folhas miúdas que caem como confete sobre a calçada criando um fino tapete me enchem de energia, e assim vou acumulando imagens para futuras edições.


Penso que criar é efetivar aquilo que surge como potência, é efetuar o processo e não detê-lo em metas e correções, é deixar fluir o tempo, e só depois então, ter a consciência da realização de uma vontade - assim, acolho os acontecimentos.

sábado, 20 de novembro de 2010

de passagem

Nasci, vivo e trabalho na cidade do Rio de Janeiro - ponto de apoio entre idas e vindas por outros lugares - complexa paisagem formada por vários tecidos urbanos e não urbanos em constante pulsão e mudança. Aqui tenho meu domicílio. Em sua geografia o Rio de Janeiro sugere um sanduiche entre o Oceano Atlântico e o Maciço da Tijuca. A faixa edificável, assim comprimida, é densamente povoada, e a cidade se espraia em direção aos morros e mata.Seus contornos de montanhas florestas praias edifícios e gente se derramam sobre as calçadas e o asfalto onde circulam ações apropriações e intervenções de diversas ordens; sejam arquitetônicas, artísitcas, sociais, políticas...  
Mas embora preserve amplos espaços de respiração - coisa incomum em outras partes - a cidade do Rio de Janeiro não consegue esconder em seus contornos os problemas sociais e de relacionamentos que a atravessam.
A cidade se apresenta para ser vivenciada e assim se revela como espaço para os mais variados acontecimentos; como pano de fundo que recebe, absorve e amplifica diversas falas.

Entre muitos autores que pensam o meio urbano como campo de enunciações encontro Michel de Certeau que observando do alto a rotina dos pedestres de Nova Iorque percebe que os percursos, ainda que invisíveis aos olhos, criam espaços na cidade. Infinitos trajetos que os mapeamentos se esforçam por reproduzir. Para Certeau: "Os jogos dos passos moldam espaços. Tecem lugares".¹  


Nossos corpos transmitem mensagens, assim o movente institui distanciamentos e aproximações; "cria uma organicidade móvel no ambiente".²

Amplidão,agitação, mutação, acumulação, dispersão, simultaneidade, fluxos, deslocamentos, reflexos e reflexões provocam novos encontros. Assim o ambiente urbano apresenta um dinamismo que irradia sua potência de organismo vivo tornando-se um lugar privilegiado para a arte.

Em meu trabalho procuro capturar traços de um texto urbano escrito nos espaços de passagem. Busco capturar indícios de modos de pensar as pressões que o ambiente urbano e seus componentes culturais exercem sobre os pensamentos e comportamentos daqueles que nele vivem e atuam.
Fico curiosa em meio a tantas diversidades, a tanta multiplicidade que cabe em cada uma dessas pessoas, e a tantas mudanças dessas diversidades ao longo do tempo; sobre quais serão os encontros mais felizes entre cada um; entre tantos e distintos modos de viver o espaço urbano.

Atuo fazendo captura de imagens em movimento. Os lugares são diversos, e entendo-os como espaços de passagem - ruas , avenidas, passarelas, plataformas, vagões e coletivos, mas também em espaços como museus e galerias -, sempre em constante movimento.
Procuro capturar os diversos posicionamentos nesses lugares, como acontecem as relações de vizinhança e ocupação entre as pessoas que habitam ainda que provisoriamente esses sítios, e que muitas vezes, por estarem aprisionadas em suas rotinas diárias, já não conseguem mais perceber o diferente brotar a cada instante na própria rotina cotidiana. São vidas que deixam de pulsar vigorosamente, para somente deixar a vida passar, e nessa apatia, deixam escapar imprevisíveis caminhos capazes de provocar o novo.

Penso que é preciso invocar forças para experimentar provocações que possam alterar a rígida especialização dos espaços que penetro. Sigo movida por uma esperança ativa a provocar desvios na repetição do mesmo que assombra esses lugares; a promover deslocamentos ao fazer transitar os comportamentos que se cristalizaram nas relações entre esses espaços e seus ocupantes.
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¹ CERTEAU, Michel de. Caminhas pela cidade. In: A invenção do cotidiano:1. Artes de fazer: Petrópolis, RJ:Vozes,2008,p.170.
² Ibidem, p.178.